terça-feira, 21 de março de 2017

Presidente do seminário: calvinistas se mandem daqui!


Bob Allen

O presidente do Seminário Batista do Sul disse em 29 de novembro que os batistas que adotam a teologia e a prática calvinista  devem considerar juntar-se a outra denominação. 

"Eu sei que há um bom número de vocês que pensam que são calvinistas, mas entendam que há uma denominação que representa essa visão," disse Paige Patterson, presidente do Seminário Teológico Batista do Sudoeste, no encerramento do culto de terça-feira. "Ela se chama presbiteriana." 

"Tenho grande respeito por eles," disse Patterson. "Muitos deles, a vasta maioria deles, são irmãos em Cristo, e eu honro sua posição, mas se eu me mantivesse nessa posição eu me tornaria um presbiteriano. Eu não continuaria sendo um batista, porque a posição batista vem desde a época dos anabatistas, realmente desde o tempo do Novo Testamento, é muito diferente." 

Patterson, co-engenheiro do assim chamado ressurgimento conservador na Convenção Batista do Sul nas últimas duas décadas do século 20, comentou imediatamente após o orador da capela Rick Patrick terminar o sermão da manhã. 

Patrick, diretor executivo do Connect316  um grupo formado no verão de 2013 para contrabalançar um número de novas organizações promotoras da perspectiva neo-calvinista  defendeu que o debate na Convenção Batista do Sul sobre o calvinismo não é apenas sobre uma questão pontual de como as pessoas são salvas. 

"Porque as Institutas de Calvino abordam um amplo espectro de categorias teológicas, estamos realmente debatendo muito mais do que apenas a questão pontual da salvação," disse Patrick, pastor sênior da Primeira Igreja Batista em Sylacauga. "Se não tivermos cuidado uma miríade de crenças e práticas relacionadas irão entrar em nosso campo, escondidas dentro do Cavalo de Tróia do calvinismo." 

Patrick disse que o neo calvinismo e a posição "tradicionalista" defendida no passado por ex-líderes da CBS, como Herschel Hobbs e Adrian Rogers, são "duas teologias sistemáticas concorrentes" com desacordos tão básicos quanto se o Pai celestial é um Deus de amor. 

"Se Deus escolheu, ativamente ou passivamente, antes da fundação do mundo colocar os réprobos incondicionalmente numa categoria da qual eles jamais podem escapar, então isso é, como Calvino admitiu, um decreto terrível," disse Patrick. "Eu nunca esquecerei a primeira vez que um calvinista me olhou diretamente nos olhos e disse que Deus não ama todo mundo. Fiquei sem palavras e, francamente, isso não acontece muito." 

Aqui está o problema de Patrick: 

"Alguns neo-calvinistas, até mesmo pastores, fumam muito abertamente cachimbos e charutos, assim como bebem cerveja, vinho," disse Patrick. "Eles talvez até mesmo fermentem em casa a própria cerveja, tentando usá-la como uma extensão para se identificar com outros fumantes e bebedores." 

"O pecado não é uma forma de evangelismo", comentou Patrick.


Fonte: Jesus Creed

domingo, 5 de março de 2017

O Inadequado Precedente Histórico para "Uma vez salvo, sempre salvo"

Aparição de Cristo a Maria Madalena - Alexander Ivanov, 1835.

O Inadequado Precedente Histórico para
"Uma vez salvo, sempre salvo"

Steve Witzki

John Jefferson Davis escreveu um artigo intitulado: “A Perseverança dos Santos: Uma História da Doutrina” [Journal of Evangelical Theological Society 34: 2 (Junho de 1991)]. Três coisas tornam este artigo de grande valor. Primeiro, ele foi escrito por um renomado e altamente respeitado teólogo calvinista. Segundo, ele abrange as pessoas chave e os grupos religiosos sobre o tema. Terceiro, ele demonstra que o “uma vez salvo, sempre salvo” ou segurança eterna incondicional não era uma doutrina que foi ensinada pela igreja antiga e, nem de forma alguma, por qualquer teólogo renomado antes de João Calvino. Essa doutrina é, de fato, completamente estranha na história do cristianismo.

Embora a primeira discussão extensa sobre a doutrina da perseverança dos santos se encontre no Tratado sobre o Dom da Perseverança de Agostinho, escrito em torno de 429 d.C., Agostinho acreditava que era possível experimentar a graça justificadora de Deus e ainda não perseverar até o fim. Agostinho acreditava que os eleitos de Deus certamente perseverariam até o fim, mas ele negou que uma pessoa pudesse saber que estava entre os eleitos e também advertiu que era possível ser justificado, mas não estar entre os eleitos. Não até Calvino conectar tudo: eleição incondicional, regeneração permanente e a certeza da perseverança final.

James Akin, um teólogo católico, disse em um debate com o teólogo calvinista James White que ninguém antes de Calvino ensinou que a predestinação à graça acarreta automaticamente a predestinação à glória.

Você pode verificar isso por si mesmo. Eu fiz isso. Pesquisei em vários livros e liguei para meia dúzia de seminários calvinistas, conversando com seus teólogos sistemáticos e professores de história da igreja, e ninguém pode nomear uma pessoa antes de Calvino, que ensinou essa tese. Todos disseram que Calvino foi o primeiro. Cheguei a ligar para John Jefferson Davis, um erudito que publicou um artigo no Journal of the Evangelical Theological Society sobre a história desta doutrina, um homem que é ele mesmo um calvinista, mas que pesquisou a história desta doutrina completamente, e ele disse que Calvino foi o primeiro a ensiná-la.

Isto coloca um problema até mesmo aos que afirmam tirar os seus ensinamentos exclusivamente da Escritura, ou seja, “Como poderia uma doutrina tão importante – se for verdadeira – permanecer completamente desconhecida pelos primeiros 1500 anos da história da Igreja e, se Jesus  tivesse voltado em algum momento, entre estes três quartos de toda a história da Igreja?”

Outras importantes doutrinas têm sido conhecidas por toda a história cristã. Os cristãos sempre souberam, mesmo quando os hereges a negavam, que Jesus Cristo era Deus. Os cristãos sempre souberam, mesmo quando os hereges a negavam, que Jesus Cristo é plenamente homem e plenamente Deus. E os cristãos sempre souberam, mesmo quando os hereges a negavam, que eram salvos puramente pela graça de Deus.

Então, quando se descobre que os cristãos nunca souberam que os verdadeiros cristãos jamais podem apostatar e, então, de repente, 1500 anos depois, alguém começa a reivindicá-la, é preciso se perguntar quem está transmitindo o verdadeiro ensinamento dos apóstolos e quem está ensinando a heresia. “Todos os Verdadeiros Cristãos Estão Predestinados a Perseverar?”

As observações de Akin são precisas e problemáticas para os estudiosos calvinistas. Além disso, o calvinista não se sai melhor quando se olha ainda mais profundamente para o que os primeiros cristãos acreditavam a respeito deste assunto. Em 1998, Hendrickson Publishers publicou A Dictionary of Early Christian Beliefs: A Reference Guide to More than 700 Topics Discussed by the Early Church Fathers. Sob o tópico da “Salvação”, encontramos a pergunta: “Os que estão salvos jamais podem se perder?” Depois de várias passagens bíblicas serem citadas [2 Cr 15.2; Ez 33.12; Mt 10.22; Lc 9.62; 2Tm 2.12; Hb 10.26; 2Pe 2.20-21], cinco páginas de citações são dadas a partir dos escritos dos primeiros líderes cristãos. Estas citações dão a evidência de que a igreja primitiva não acreditava em “uma vez salvo, sempre salvo.” Eles ensinaram que era possível para um crente genuíno rejeitar a Deus e acabar eternamente separado de Deus no inferno [pp. 586-591].

David Bercot, editor deste dicionário, também escreveu um livro provocativo chamado, Will the Real Heretics Please Stand Up?  É preciso que a igreja evangélica de hoje, tanto em seu estilo de vida quanto ensino, olhe para isto à luz do ensino cristão primitivo. Esse é um livro interessante que vem de alguém que leu todas as obras dos Pais Pré-Nicenos mais de uma vez. Ele escreve,

Visto que os primeiros cristãos acreditavam que nossa fé e obediência contínuas são necessárias para salvação, naturalmente segue que eles acreditavam que uma pessoa “salva” poderia ainda acabar se perdendo. Por exemplo, Irineu, o pupilo de Policarpo, escreveu: “Cristo não morrerá novamente em favor daqueles que agora cometem pecado porque a morte não mais terá domínio sobre Ele... Portanto, não devemos estar inchados... Mas devemos ter cuidado para que, de alguma forma, depois de [termos vindo ao] conhecimento de Cristo, se fizermos coisas desagradáveis ​​a Deus, não obtermos mais perdão dos pecados, mas sim sermos excluídos de Seu reino” (Hb 6.4-6) [p. 65].

O que a Igreja Cristã acreditou historicamente a respeito da segurança do crente não é o teste final para determinar a nossa posição sobre esta questão hoje, mas a falta de precedentes históricos deve servir como um aviso. Antes de João Calvino, o ensino da segurança eterna incondicional não era uma doutrina que foi ensinada pela igreja universal através dos séculos. Portanto, enquanto as Escrituras são o teste final para a verdade sobre esta questão, “uma vez salvo, sempre salvo”, os professores precisam reconhecer que sua doutrina é historicamente uma anomalia. Além disso, a marca do ensino “uma vez salvo, salvo sempre” que diz às pessoas que elas podem parar de acreditar e ainda estar no seu caminho para o céu (mas com menos recompensas) não se encontra em nenhum lugar no cristianismo histórico antes do século XX.




Fonte: The Arminian

Postado originalmente em: Paleo-Ortodoxo

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quarta-feira, 1 de março de 2017

É compatível a teologia arminiana com o conhecimento médio?

A Queda: Adão e Eva - Rafael.

Por Roger E. Olson

Um dos impulsos mais básicos do arminianismo é que Deus não é o autor do pecado e do mal – mesmo que indiretamente. Sobre isto virtualmente todos os conhecedores a respeito da teologia arminiana concordam. O determinismo divino, a crença que Deus diretamente ou indiretamente determina tudo o que acontece de acordo com um plano determinado foi rejeitado por Armínio e tem sido rejeitado por todos arminianos desde então. Eu demonstrei isso em Teologia Arminiana: Mitos e Realidades e Contra o Calvinismo.  A teologia arminiana e o determinismo são como água e óleo; eles não se misturam. A razão deles não se misturarem é por causa do Grundmotif arminiano que é a bondade de Deus. Se o determinismo for verdade, a queda e todas as suas consequências, incluindo o inferno eterno, são parte do plano de Deus e se tornam necessários por Deus mesmo que apenas indiretamente.

Em um agora famoso e muito discutido artigo em Sixteenth Century Journal (XXVII:2 [1996]: 337-352) o teólogo holandês Eef Dekker perguntou “Armínio foi um molinista?” e sua resposta foi afirmativa. (Molinismo é, naturalmente, sinônimo da crença no conhecimento médio.) Vários dos principais estudiosos de Armínio concordaram. O teólogo reformado Richard Muller concordou em God, Creation, and Providence in the Thought of Jacob Arminius (Baker, 1991). (Ele chegou à mesma conclusão que Dekker.) O teólogo holandês William den Boer concorda em God’s Twofold Love: The Theology of Jacob Arminius (1559-1609) (Vandenhoek & Ruprecht, 2010). Agora, em dois estudos recentes da teologia de Armínio três teólogos americanos concordam. (Estarei respondendo aos dois livros deles em uma conferência profissional em novembro, então não irei nomeá-los ou abordar seus argumentos diretamente agora.)

Então parece que há um consenso se desenvolvendo que o próprio Armínio foi um “protestante molinista” e talvez tenha realmente introduzido o molinismo, conhecimento médio, na teologia protestante. (Molina foi um católico contemporâneo de Armínio.) Contudo, outros estudiosos de Armínio não têm tanta certeza. Um dos estudos mais acadêmicos e exaustivos da teologia de Armínio é a dissertação de doutorado de William G. Witt, para a Universidade de Norte Dame, a qual eu usei extensivamente em Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Witt defendeu que Armínio mencionou, mas não usou o conhecimento médio. Outro estudioso de Armínio que concorda com Witt é F. Stuart Clarke, autor de The Ground of Election: Jacob Arminius’ Doctrine of the Work and Person of Christ (Paternoster, 2006).

Sem dúvidas alguém pode encontrar referências ao conhecimento médio nos escritos de Armínio. A questão é se ele se baseou no conhecimento médio para reconciliar a presciência de Deus com o livre arbítrio (e não há dúvidas que ele acreditava no libre arbítrio libertário) e se usou o conhecimento médio para explicar a soberania de Deus no governo providencial de todo o universo incluindo as decisões e ações de criaturas livres.

Dekker defende que, ao usar o conhecimento médio, Armínio inconsistentemente caiu no determinismo. Den Boer admite que mesmo se Armínio usar o conhecimento médio isto não implicaria em determinismo, isto levantou algumas questões sérias a respeito da consistência de Armínio – especialmente no campo prático. Isto é, mesmo se o conhecimento médio não implique em determinismo, ele transmite a impressão, pelo menos aos não doutos, que suas vidas estão predeterminadas.

Eu já discuti aqui antes que crer no conhecimento médio de Deus, que o conhecimento pelo qual Deus sabe não apenas o que acontecerá, mas também o que aconteceria, não só o que criaturas livres farão, mas o que elas fariam livremente em alguma situação possível, conjunto de circunstâncias, não é em si e de si mesmo inconsistente com os impulsos básicos do arminianismo que têm a ver com a bondade de Deus (seu “duplo amor”). Contudo, eu defendi, e continuo mantendo que, uma vez que alguém crê que Deus usa o conhecimento médio para tornar certo o que cada criatura faz o que elas fazem ao criá-las e colocá-las em circunstâncias onde ele sabe que elas farão “livremente” alguma coisa, então o determinismo está à porta, se não na sala de estar e isso é inconsistente com os impulsos básicos do arminianismo. Isto faz de Deus o autor do pecado e do mal mesmo se apenas inadvertidamente.

A fim de testar isto temos que voltar a primeira desobediência – a queda de Adão e Eva. A questão não é se Deus sabia que eles desobedeceriam, mas se Deus tornou certo este ato de desobediência.

Os defensores do conhecimento médio geralmente se apoiam na distinção entre “certo” ou “infalível” e “necessário,” com somente o último tornando Deus o autor do pecado e do mal. O argumento é que Deus usa o conhecimento médio para tornar a queda certa, mesmo que infalivelmente (isto poderia não ter acontecido dado a presciência de Deus do que Adão e Eva fariam e da sua criação e colocação deles nessa situação) não torne a queda necessária.

Eu me inclino a achar que isso é uma distinção sem diferença.

Esse uso do conhecimento médio, providencialmente torna a queda certa, necessariamente implica em um plano da mente de Deus que torna a queda não só parte da vontade consequente de Deus, mas também parte da sua vontade antecedente. E, como todos sabem e concordam, a distinção entre a vontade consequente e antecedente de Deus é crucial para o argumento do arminianismo de que Deus não é autor do pecado e do mal.

Por que Deus usaria seu conhecimento médio providencialmente? E por que ele usaria isto em tudo se não para o propósito de providência meticulosa?

Muitos calvinistas usam o molinismo, conhecimento médio, para “explicar” a predestinação e reprovação a fim de conseguir Deus “fora do gancho,” por assim dizer, como o não autor do pecado e do mal. Eu acho isso, por exemplo, de Millard Erickson e Bruce Ware – dois calvinistas evangélicos que usam conhecimento médio como a “chave” para reconciliar soberania de Deus e livre arbítrio humano. Contudo, eles pelo menos admitem que sua visão de livre arbítrio é compatibilista – que o livre arbítrio é compatível com o determinismo.  Em outras palavras, se o meu argumento está correto, eles “conseguiram isto” – o conhecimento médio usado por Deus para vantagem providencial exige uma visão compatibilista de livre arbítrio.

Com o melhor do meu conhecimento nenhum arminiano reivindica crer em compatibilismo; todos abraçam o livre arbítrio libertário.

Mas, para mim, ao menos, o livre arbítrio libertário significa “a capacidade de fazer o contrário do que alguém faz.”

Agora, reconhecidamente, os crentes arminianos no conhecimento médio, incluindo os que creem que Deus usa o conhecimento médio para tornar certas as decisões e ações das criaturas de acordo com um plano, reivindicam crer que as criaturas que pecam o fazem com liberdade libertária. Em outras palavras, eles poderiam fazer o contrário. Bem, pelo menos Adão e Eva poderiam ter feito o contrário de desobedecer a Deus. (O cenário fica mais complicado para sua posteridade sob os efeitos da queda.) Mas eles poderiam ter feito o contrário?

Se o conhecimento médio é verdade e Deus o usa para uma vantagem providencial, como Richard Muller diz, oferecendo incentivos para as criaturas que Deus sabe que seguirão dadas suas disposições e inclinações, então Deus não está apenas “no controle”, mas “realmente controlando” todas as coisas incluindo a desobediência de Adão e Eva. Eles não poderiam ter feito o contrário, mesmo que o fizessem “livremente”. Essa é a essência do compatibilismo!

Vamos usar uma ilustração. Suponha que eu conheça um dos meus alunos tão bem que eu sei (além de qualquer possibilidade de estar errado) que, se eu o orientar a ler um determinado livro, ele entenderá mal o assunto do nosso curso e será reprovado. Sem o livro, ele seria aprovado no curso. Porém eu o oriento a ler o livro. Por quê? Bem, talvez porque eu precise de alguém seja reprovado no curso. Eu não tenho variação de notas e o deão está preocupado que eu não estou mantendo os padrões acadêmicos. Todos os meus alunos são aprovados com as melhores notas. Minha carreira está em perigo, assim como a credibilidade acadêmica da escola. Então, eu uso o meu conhecimento médio das disposições e inclinações para trazer o aluno infalivelmente a reprovação do curso. Nada que eu fiz excluiu o seu livre arbítrio. Ele leu o livro voluntariamente (nenhuma coerção externa foi usada, apenas indução). (Nota: Nada disso aconteceria, é puramente hipotético.)

Agora, quem é realmente responsável pelo, o “autor do”, aluno ser reprovado no curso?

Pode ser razoavelmente dito que, tornando certo a sua reprovação, usando o meu conhecimento médio, eu não a torno necessária?

Agora, não há assunto em apelar à liberdade de Deus fazer o que quer que ele quer fazer. Este é um debate entre arminianos e arminianos, seguindo Armínio, não são nominalistas. Todos nós concordamos que Deus é essencialmente bom por natureza e não pode simplesmente fazer qualquer coisa capaz de ser posta em palavras. Nenhum arminiano informado diria: “Tudo o que Deus faz é automaticamente bom, só porque Deus o faz.” Então essa objeção ao meu cenário não é relevante para este contexto – um debate entre arminianos.

Tenho a tendência de concordar com Eef Dekker, contra vários dos principais estudiosos de Armínio, que se Armínio usou o conhecimento médio para explicar a soberania de Deus, então ele inconscientemente se contradisse. Ele contradisse o seu próprio princípio mais básico, que é que Deus não é de modo algum o autor do pecado e do mal. Ele involuntariamente caiu no determinismo nesse ponto e não deveria ter se baseado no conhecimento médio. Por que ele fez uso, se ele fez, é uma questão separada. Eu acho que respostas razoáveis ​​podem ser imaginadas (tendo a ver com seu desejo de construir pontes entre ele e seus críticos).

Então o que isso significa para arminianos? Eu certamente não direi que é impossível ser arminiano e molinista. O que direi é que, na minha opinião, o molinismo é um corpo estranho no arminianismo, mesmo se o próprio Armínio o usasse! Se ele o fez, foi um corpo estranho em sua própria teologia, no sentido de que ele estava em conflito com seus próprios compromissos básicos de crença sobre a bondade de Deus, Deus não sendo em nenhum sentido o autor do pecado e do mal, e o livre arbítrio das criaturas (especialmente em desobediência).

Ninguém deveria se surpreender se um teólogo cai em contradição consigo mesmo às vezes – especialmente se ele (ou ela) escreve muito durante um longo período de tempo. Eu sou um teólogo histórico e estudei as teologias de virtualmente todos os grandes teólogos cristãos de Irineu a Pannenberg (e além). Em cada caso eu encontro alguma tensão, algum elemento de conflito dentro do próprio sistema do teólogo.

Além disso, ser arminiano não exige concordância absoluta com Armínio. Se fosse esse o caso, ele teria sido o único arminiano (e talvez nem mesmo ele fosse!).







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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Graça Preveniente - Animação

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Perseverança e a Possibilidade de Apostasia - Keith D. Stanglin



A. Perseverança e a Possibilidade de Apostasia

Não seria acurado afirmar que Armínio diretamente negou a doutrina da perseverança dos santos; como foi o caso com outras doutrinas reformadas controversas, sua afirmação se fundamentou numa definição particular qualificada. Em sua Declaratio sententiae, Armínio declarou seus sentimentos a respeito da perseverança dos santos: “... que as pessoas que foram enxertadas em Cristo, pela fé verdadeira, e assim têm se tornado participantes de seu precioso Espírito vivificador, dispõem de poderes suficientes [ou] forças (cracht) para lutar (strijden) contra Satanás, contra o pecado, contra o mundo e a sua própria carne e para obter a vitória sobre esses inimigos, mas não sem a ajuda da graça do mesmo Espírito Santo.”[84] Estes verdadeiros crentes têm, portanto, implorado o socorro de Deus. Cristo os preserva de cair, até o ponto em que Satanás não conseguir de forma alguma tirá-los das mãos de Cristo.[85] Por cima, a definição de Armínio a respeito da perseverança não é significativamente diferente da de Gomarus, que define perseverança dos santos assim: “Ela é a persistência dos verdadeiros fiéis na fé, até o fim da vida, a partir da graça de Deus, por causa do mérito de Cristo, com a virtude do Espírito Santo através do ministério do evangelho, para a glória de Deus e salvação dos santos perseverantes.”[86] Tal como esta definição está, é difícil imaginar Armínio achando algum erro nela.[87]

            A questão real é se os santos necessariamente perseveram, ou se é possível a eles se perderem. Quando Armínio deu atenção explícita ao tópico da perdição dos santos, ele geralmente não se comprometeu com uma opinião firme. Em sua obra contra Perkins, no início da sua carreira, Armínio escreveu que ele não ousaria dizer prontamente que a verdadeira e salvífica fé, totalmente ou finalmente, se perde.[88] Até mesmo no fim da sua carreira, ele pareceu permanecer indeciso sobre esta questão.[89] De fato, os relatos da conferência final em Haia dois meses antes da sua morte mostram que Armínio nunca se opôs a doutrina no que diz respeito a certa perseverança dos verdadeiros fiéis (vere fidelium).[90] Ao mesmo tempo, facilmente se pode ver as inclinações de Armínio sobre este tópico. Não só ele é rápido em apontar que em nenhum momento na história da igreja algum ponto de vista particular sobre esta questão havia sido considerada como uma doutrina necessária, mas ele também afirma que a maior parte da tradição cristã, especialmente os pais, diria que é possível aos crentes se perder e perecer.[91] Ademais, quando Perkins defendeu que é impossível a verdadeira fé falhar, Armínio avida e habilmente argumentou contra essa visão.[92]

            Por causa da aparente vacilação de Armínio sobre a possibilidade de apostasia e por causa das inferências feitas a partir de seus mais claros ensinos, este assunto se tornou em outra área de conflito. Ele foi debatido em Leiden especialmente por causa dos claros ensinos de seus colegas contra a possibilidade de apostasia. De acordo com Gomarus e Kuchlinus, o enlace com Deus e a união do fiel com Cristo e a Igreja são perpétuas.[93] Gomarus aponta que os santos são os eleitos que possuem fé verdadeira, e não o réprobo que pode ter fé temporária.[94] Kuchlinus é particularmente inflexível que os santos nem sequer podem toti, totaliter, ou finaliter abandonar sua fé.[95] O dom da regeneração é ἀμεταμέλητα (irrevogável), “portanto, uma vez dado, o Espírito Santo sempre permanece.”[96]

            Armínio pode parecer, a princípio, incerto quanto a possibilidade de apostasia, mas após uma maior investigação o seu ponto de vista é realmente bastante direto. Dois pontos de distinção são essenciais para entender a posição de Armínio. Primeiro, Armínio distingue entre a possibilidade e a realidade dos fiéis se perderem. “Eu digo que deve ser feita distinção entre possibilidade e realidade (potentiam et actum). Pois uma coisa é os fiéis serem capazes (posse) de declinar da fé e da salvação: outra coisa é realmente caírem.”[97] Por mais estranha que esta distinção possa parecer ao intérprete moderno, esta distinção foi importante na teologia tradicional, como evidenciado pelo apelo de Agostinho (e Armínio) a mesma distinção na questão da perfeição cristã. Armínio prosseguiu dizendo,

Pois ser realmente salvo e a possibilidade de não ser salvo, não são coisas contrárias, mas concordam. Portanto, acrescento que sempre tenho distinguido entre estas duas coisas, de modo que realmente disse algumas vezes com explicação acrescida, que os fiéis são capazes de finalmente declinar da fé e da salvação; mas nunca disse que os fiéis finalmente declinam da fé e da salvação.[98]

            A afirmação clara de Armínio de que ele realmente ensinou que é possível aos crentes perderem a fé e a salvação à primeira vista parece contradizer a declaração igualmente clara na Declaratio sententiae de que ele nunca ensinou esta possibilidade. O texto traduzido por Nichols diz: “Eu nunca ensinei que um verdadeiro crente pode totalmente ou finalmente perder a fé e perecer.”[99] Contudo, após uma investigação mais detalhada dos textos originais, esta contradição aparente é resolvida, pois não há equivalente ao inglês “can” [poder] no holandês ou no latim. Esta falta de connen ou posse mostra que Armínio foi consistente em seu ensino sobre esta questão, e que na Declaratio ele estava falando da realidade, e não da possibilidade de apostasia. A frase deve ser lida: “Eu declaro inequivocamente que jamais ensinei que o verdadeiro crente se afasta (afwijcken), quer totalmente ou finalmente, da fé e assim se perde.”[100] Portanto, Armínio afirma a possibilidade de apostasia; se realmente isto acontece ele parece deixar aberto para discussão.

A segunda distinção significativa que Armínio faz é entre uma pessoa eleita e um crente. Ele observa que a eleição para salvação não denota apenas crença, mas também perseverança nessa fé. Portanto, uma pessoa eleita deve tanto crer quanto perseverar. “Crentes e os eleitos não são corretamente tomados como as mesmas pessoas.”[101] Para Armínio, há certamente a categoria de verdadeiros crentes que não perseveram. Por este raciocínio, os eleitos por definição não podem se perder, pois eles creem e perseveram. Os crentes simpliciter podem se perder caso não perseverem, demonstrando assim não serem eleitos. Além disso, este julgamento concorda com a distinção que Armínio faz entre os fiéis que caem da fé, e os fiéis que caem da salvação. De acordo com Armínio, é incoerente simplesmente afirmar que os fiéis podem perder a salvação. É mais apropriado dizer que os fiéis podem cair da fé; depois, como incrédulos, eles não teriam salvação. Enquanto os crentes perseverarem, eles têm salvação. “Pois é impossível aos fiéis, enquanto permanecem fiéis, declinar da salvação.[102]

Recordar a comparação do mendigo de Armínio, porque a fé é um dom resistível – porque um mendigo poderia presumivelmente rejeitar a esmola que lhe foi dada – a verdadeira fé não é necessariamente apenas para os eleitos. Provavelmente por causa da visão diferente de Gomarus da irresistibilidade da graça e da fé que ele se opôs a distinção teórica de Armínio (propriamente dos jesuítas) entre um crente verdadeiro e uma pessoa eleita. Ao concluir o seu debate sobre a perseverança, Gomarus insistiu, “Também os jesuítas maldosamente estabelecem duas espécies de verdadeiros fiéis e justificados, a saber, os eleitos que perseveram e os não-eleitos que declinam.”[103] O que aparece no sistema de Armínio é um tipo de fé temporária que, a despeito da objeção de Gomarus, não é muito diferente da categoria reformada de fé temporária. A semelhança prática entre os dois sistemas é que ambos concordariam que uma pessoa visivelmente fiel que aparentemente caiu até o fim demonstrou não ser um dos eleitos.[104] Uma dificuldade semelhante tanto para Armínio quanto para os seus contemporâneos reformados é que uma pessoa não pode dizer atualmente se ela ou qualquer outra pessoa verdadeiramente perseverará na fé ou na incredulidade.






Fonte: STANGLIN, Keith D. Arminius on the Assurance of Salvation. Leiden: BRILL, 2007. p. 130-134




[84] Dec. sent., p. 114; Works 1:664; Obras 1:232
[85] Dec. sent., p. 114-15; Works 1:664-65; Obras 1:232-33
[86] Gomarus, Theologicarum disputationum decimaoctava: de sanctorum perseverantia, Henricus Arnoldus respondens, 5 de Março de 1597 (Leiden, 1597), i: “Ea autem est vere fidelium in fide, ad finem usque vitae, ex Dei gratia, propter Christi meritum, virtute S. Sancti per ministerium Evangelii, perduratio, ad gloriam Dei et perseverantium sanctorum salutem.” Cf. a definição em idem, De perseverantia (1608), ii: “Perseverantia Sanctorum est, qua, qui vinculo non solùm aternae [sic] electionis, sed etiam Spiritus Christi, veraeque fidei Christo copulati, in perpetuum in ipso Christo et in fide perseveraturi sunt, ita ut a fide prorsus excidere non possint: idque non propter proprias vires, aut merita, sed tum propter promissionem, et conservationem divinam, tum propter Christi intercessionem et precationem.”
[87] Letham, ‘Faith,’ 1:314, exagera a questão quando afirma que, “Armínio não tinha qualquer doutrina da perseverança.”
[88]Exam. Perk., em Opera, p. 757; Works 3:454; Obras 3:457.
[89] Veja Dec. sent., p. 115; Works 1:667; Obras 1:233. O quinto artigo da Remonstrância de 1610 é igualmente indecisa sobre esta questão porque, como o quarto artigo, ele é tomado quase que literalmente da Declaratio sententiae de Armínio. Sobre a relação entre a Declaratio de Armínio e a Remonstrância de 1610, veja Hoenderdaal, ‘Inleiding,’ pp. 36.41.
[90] Acta Synodi, fol. (d)1v; veja também a carta de Hommius para Lubbertus em Wijminga, Hommius, Bijlage G, p. xiv.
[91] Art. non., em Opera, p. 962; Works 2:725; idem, Exam. Perk., em Opera, pp. 757-58; Works 3:454-55.
[92] Exam. Perk., em Opera, pp. 757-66; Works 3:454-70.
[93] Gomarus, De perseverantia (1597), ix e xi; idem, De fide iustificante (1603), xvii; Kuchlinus, De perseverantia (1603), v e vii.
[94] Gomarus, De perseverantia (1608), vi.
[95] Kuchlinus, De perseverantia (1603), i.
[96] Kuchlinus, De perseverantia (1603), viii: “ergo semel datus Spiritus Sanctus semper manet.” Cf. Trelcatius, Sr., De fide (1592), xi, que chama a fé de dom ἀμεταμέλητα.
[97] Apologia, art. 1-2, em Opera, p. 136; Works 1:741; Obras 1:257.
[98] Apologia, art. 1-2, em Opera, p. 136; Works 1:741; Obras 1:257-58, itálicos meus: “Salvari enim actu et posse non salvari contraria non sunt, sed consentanea. Addo igitur me inter ista duo huc usque ita discriminasse, ut addita explicatione aliquando dixerim quidem, fideles posse a fide et salute finaliter deficere; at nunquam dixisse fideles a fide et salute finaliter deficere.” Os itálicos na tradução de Nichols para o inglês  são confusas, como se a ênfase estivesse sobre finaliter. A diferença real é a presença e depois a ausência de posse.
[99] Em Works 1:667; Obras 1:233.
[100] Dec. sent., p. 115; Opera, p. 123. Aqui reside um ponto de descontinuidade com os remonstrantes posteriores, os quais, uma década após a morte de Armínio, afirmaram não apenas a possibilidade, mas também a frequente realidade da apostasia. Veja Sententiae Remonstrantium no quinto artigo, entregue na 34ª sessão do Sínodo de Dort, em Acta synodi nationalis, in nomine Domini nostri Iesu Christi... Dordrechti habitae anno M.DC.XVIII. et M.DC.XIX (Hanau, 1620), p. 166 (ênfase minha): “Vere fideles possunt a vera fide excidere, et in istiusmodi prolabi peccata, quae cum vera et iustificante fide consistere non possunt: nec potest hoc tantum fieri; sed et non raro fit.” As Sententiae Remonstrantium estão traduzidas em Crisis in the Reformed Churches: Essays in Commemoration of the Great Synod of Dort, 1618–1619, ed. Peter Y. De Jong (Grand Rapids, 1968), pp. 221-29. Cf. Hoenderdaal, ‘Arminius en Episcopius,’ 216; Graafland, Van Calvijn tot Barth: Oorsprong en ontwikkeling van de leer der verkiezing in het Gereformeerd Protestantisme (The Hague, 1987), p. 175.
[101] Arminius, Quaestiones, resp. 8, em Opera, p. 186; Works 2:68; Obras 1:350.
[102] Apologia, art. 1-2, em Opera, p. 136; Works 1:741-42; Obras 1:258: “Nam impossibile est fideles, dum fideles manent a salute deficere.”
[103] Gomarus, De perseverantia (1597), cor. ii: “Male etiam Iesuitae vere fidelium ac iustificatorum duas constituunt species, videlicet electos, qui perseverant: et non electos, qui deficiunt.”
[104] Cf. Kendall, Calvin, pp. 143-45.


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O outro lado do legalismo

Por Luís Henrique S. Silva

           Atualmente na igreja evangélica brasileira devido a uma série de literaturas, principalmente de origem norte-americana, publicadas ao longo de anos, alguns problemas teológicos têm sido mais bem analisados do que outrora. Especialmente o problema de legalismo[1] em comunidades cristãs aparece neste tipo de literatura como uma farta fonte para a análise da espiritualidade dos cristãos.[2] Certamente muitos cristãos já tiveram que enfrentar alguma situação (ou ainda enfrentarão) na igreja que poderia ser classificada como legalismo.

Portanto, este problema não é um assunto exclusivamente relacionado com as academias teológicas, ao contrário ele nos remete ao cotidiano de nossas igrejas através da relação pessoal entre os cristãos. Obviamente o erro legalista decorre de uma perspectiva teológica errada e assim afeta a toda prática cristã.[3] Na Escritura vemos exemplos de legalismo nos fariseus, os quais conforme Jesus “Amarram fardos pesados e os põem nas costas dos outros, mas eles mesmos não os ajudam, nem ao menos com um dedo, a carregar esses fardos” (Mt 23.4 NTLH). Dentre tantas coisas que poderiam ser destacadas, enfatizamos que o legalismo farisaico oculta a hipocrisia destes líderes espirituais em exigir do seu rebanho algo que o próprio Deus não ordenara. Inevitavelmente muitas pessoas deveriam se encontrar frustradas e exaustas espiritualmente tentando cumprir com a suposta vontade de Deus. Jesus caracteriza estas pessoas “como ovelhas sem pastor” (Mt 9.36 NVI).

O Novo Testamento nos informa que o problema do legalismo não é uma novidade contemporânea, visto que Jesus e posteriormente os apóstolos tiveram de enfrenta-lo[4] ele tem se mostrado um erro recorrente na história cristã. Todavia outro assunto menos trabalhado (ou quem sabe pouco conhecido, porém presente em muitos círculos evangélicos) por autores e seus livros caracteriza-se por ser a antítese do legalismo, estamos falando de um problema chamado antinomismo. Tal como o legalismo, o antinomismo também tem acompanhado a história da igreja desde a sua fundação. Especificamente no protestantismo do século XVI o antinomismo emergiu na figura de João Agrícola, o qual entrou em debate com Martinho Lutero, ensinando que a lei de Deus (Decálogo) deveria ser removida da igreja.[5]

O assunto do antinomismo interessa muito a nós arminianos devido a ser um tema relevante que impacta a prática de uma igreja espiritualmente saudável bem como por termos um grande ícone da tradição arminiana, John Wesley, o qual dedicou pelo menos dois escritos seus diretamente a este problema, a saber, a Conversa Entre Um Antinomista e Seu Amigo e a Segunda Conversa Entre Um Antinomista e Seu Amigo.[6] Alguns pontos destas duas obras merecem ser brevemente destacados para uma visão global deste relevante assunto.

Na primeira conversa a doutrina da justificação pela fé é usada pelo antinomista para dizer que todos os pecados pessoais do crente (passados, presentes e futuros) foram “destruídos”. As respostas embasadas na Escritura para a questão levantada são, para o antinomista, uma apelação ao uso da razão carnal sob o seu evidente fideísmo.[7] O antinomista acusa o amigo de ser legalista por tê-lo confrontado com versículos opostos a sua crença. O amigo, por sua vez, acusa o antinomista de dizer coisas sem sentido e não fazer a distinção entre justificação e santificação.

Já na segunda conversa começa com uma discussão terminológica, o antinomista não aceita ser rotulado como tal. Em seu parecer ele é um pregador da justiça de Deus, enquanto o amigo prega uma justiça inata (i.e. há aqui uma sutil acusação de pelagianismo). O amigo explica a libertação da lei distinguindo-a em cerimonial e moral, o homem não precisa cumprir a lei cerimonial, porém a respeito da lei moral o homem está livre da condenação, mas não de cumpri-la. Conforme o amigo, uma possível síntese dos posicionamentos entre os dois não ocorrerá porque o antinomista possui: 1) uma linguagem imprecisa; 2) uma linguagem ambígua; 3) uma linguagem não escriturística; 4) porque esta forma de falar pode produzir soberba. Com estas informações podemos entender um pouco sobre o tipo de antinomismo[8] que Wesley enfrentou em seus dias.

Uma vez obtido este discernimento sobre o antinomismo, devemos nos perguntar: atualmente a crítica ao legalismo não tem gerado certa antinomismo na igreja? Ao que parece uma resposta positiva não seria descabida, em vez da crítica centralizar o pêndulo da prática cristã nas prescrições bíblicas ela o tem levado em algumas circunstâncias para o outro lado, o lado do antinomismo. O crescimento de evangélicos sem vínculos com qualquer instituição[9] é uma demonstração empírica de uma forma líquida de conceber a espiritualidade, caracterizada pelo despojamento de regras cúlticas e o evidente desapontamento com a estrutura tradicional eclesiástica. Tal desapontamento se cristaliza, principalmente, em críticas a “religião” e a “religiosidade” como intrinsicamente más, inibidoras da verdadeira espiritualidade, propaladoras de legalismo, etc. Tudo isto, por sua vez, abre espaço para o surgimento de um sentimento restauracionista e pensamento revisionista quanto a tradição cristã.[10]

Wesley também enfrentou o problema gerado pela distorção do cristianismo bíblico. Em Um Apelo Sincero aos Homens de Razão e Religião, ele se propõe a defender o movimento metodista de algumas críticas, e ao explicar o fundamento da religião cristã a sua oponente, ela lhe diz: “Senhor, se isto for Cristianismo”, “Eu nunca vi um cristão em minha vida.”[11] O antinomismo distorce a religião cristã e cria a visão romântica que podemos ir ao seu encontro em nossos próprios termos. Não há ideia mais errada sobre Deus do que esta, o Senhor do universo não se submete aos caprichos humanos e nem aceita os seus egoísmos. A teologia Armínio-wesleyana exalta a soberania de Deus e afirma que o homem deve se sujeitar aos termos divinos para a realização da sua vontade. Jesus deixa claro que quem vive uma vida imprudente ouvirá no último dia: “Em verdade vos digo que não vos conheço” (Mt 25.12). Jesus rejeitará toda aparência de cristianismo, não há cristianismo teórico, a profissão de fé em Jesus exige uma vida compromissada com o reino de Deus e sua vontade (Mt 25.31-46).

Uma das características do antinomismo é ter um discurso que aparentemente exalta a graça divina, no entanto, na prática acaba por negá-la. O apóstolo Tiago nos informa que a genuína graça dispensada a nós não dá pretexto algum para uma vida indisciplinada e relapsa em relação ao cultivo das virtudes cristãs (Tg 1.22-25). A graça é a força que impulsiona o cristão a buscar a Deus não apenas em palavras, mas através de todo o seu ser. A verdadeira religião e religiosidade, para Tiago, consistem no exercício da santidade de vida.

Alguém está pensando que é religioso? Se não souber controlar a língua, a sua religião não vale nada, e ele está enganando a si mesmo. Para Deus, o Pai, a religião pura e verdadeira é esta: ajudar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e não se manchar com as coisas más deste mundo. (Tg 1.26-27 NTLH)

Na tradição Armínio-wesleyana a santidade não é vista apenas sob o aspecto pessoal, mas também social. A santidade tem que ir além da experiência solitária, ela precisa ser realizada dentro do contexto da comunidade cristã. Grosseiramente, a santidade encontra o seu objetivo no serviço ao próximo, coisa que uma santidade ou religião solitária não consegue alcançar. Wesley chega a afirmar que: “... o cristianismo é essencialmente uma religião social, e que fazer dele uma religião solitária é, na verdade, destruí-lo.”[12] De certa forma a inclinação antinomista a descorporização deságua em ostracismo e quietismo, os quais são uma séria ameaça a esfera social da santidade. A prática de obras de piedade e de misericórdia só são possíveis excluindo-se o individualismo antinomista e o seu descompromisso com a graça. Tais obras beneficiam tanto quem é servido quanto quem as ministra e, conforme Wesley, são meios de graça nos quais somos aperfeiçoados e crescemos em amor a Deus e ao próximo.[13] Portanto, o antinomismo perversamente, em nome da graça, priva o homem da graça, de ser aperfeiçoado através dela e crescer nela.

Para John Wesley não há cristianismo de um homem só! Porém este é o caminho do antinomismo, ele vai rumo a religião solitária que não tem preocupação em servir e amar o próximo. Há também uma forma velada de antinomismo que podemos encontrar em muitas comunidades cristãs, trata-se da terceirização da caridade cristã. Sim, aparentemente o amor cristão foi terceirizado a um departamento da igreja! Em vez de toda igreja participar ativamente do exercício da caridade esta responsabilidade foi transferida a um grupo específico. Embora não seja errado a criação de um departamento específico para a “ação social” a fim de uma melhor organização, o exercício de obras de misericórdia é dever de todo cristão e não apenas de alguns.

Tal como Wesley, precisamos dizer: “A coisa que você precisa é a religião que pregamos.” “Você precisa da religião do amor e nada mais.”[14] Só a religião do amor nos apresenta ao Cristo soberano que recebe o pecador, mas também diz: “vai e não peques mais.” (Jo 8.11). Tanto o legalismo quanto o antinomismo criam orgulho espiritual e abrem espaço para a reivindicação de superioridade espiritual.  Todavia, a religião do amor cria humildade e serviço ao próximo. De fato devemos exaltar a graça, ela aceita a todos, mas por outro lado não deixa de transformar ninguém que está ao seu alcance. Falar sobre graça e desconsiderar a transformação que ela provoca é fazer apologia contra ela. A máxima latina “In medio stat virtus” (trad. A virtude está no meio), lembra-nos que as boas coisas não estão em opostos antagônicos, mas sim entre eles. Portanto, que possamos orar cantando:

2. Vem, Senhor, ajudar o teu povo a se unir,
Se o que tem é pouco, na partilha é sustento.
Dá-lhe sempre esperança e mais fé para prosseguir
Aperfeiçoa o amor que é mais do que alimento.[15]



[1] Basicamente o legalismo coloca a observação a leis como meio para salvação.
[2] Por exemplo, autores como Philip Yancey e Brennan Manning têm se servido de suas experiências pessoais para abordar em seus livros o legalismo e o árido formalismo eclesiástico.
[3] O arminiano D.L. Moody corretamente salienta que: “A Lei não foi dada como meio de salvação. Foi dada a um povo já salvo (19:4; 20:22) a fim de instruí-lo na vontade do Senhor, para que pudesse realizar o propósito de Deus como ‘um reino de sacerdotes e uma nação santa’ (19:6). A revelação foi dada ‘não para dar, mas para orientar a vida.’” In: SANTOS, Flávyo H. A Lei como revelação de Deus. São Paulo: Editora Reflexão, 2016. p. 57.
[4] Por exemplo, no cumprimento do sábado: Mt 12.1-14; leis dietéticas segregacionistas: Mt 9.9-13; observância de coisas insignificantes em detrimento das importantes: Mt 23.23; circuncisão: At 15.1-35; Gl 6.12-16; ritualismos como forma de aperfeiçoamento: Cl 2.16-23.
[5] ANTINOMISMO. SCHÜLER, Arnaldo. In: Dicionário Enciclopédico de Teologia. Canoas: Ed. ULBRA, 2002. p. 50-51.
[6] Ambos escritos estão no Tomo VII das Obras de Wesley traduzidas para o espanhol. Disponível em:
[7] “Designação dada a todos sistemas filosóficos que põem a fé acima da razão.” SCHÜLER, 2002. p. 205.
[8] Conforme o autor calvinista J.I Packer os tipos podem ser classificados em antinomismo: 1) dualístico; 2) centrado no Espírito; 3) centrado em Cristo; 4) dispensacional; 5) dialético; e 6) situacionista. Contudo, a descrição do antinomismo dada nos escritos de Wesley não parece se encaixar peremptoriamente em nenhum deles.  Por isso prosseguiremos chamando apenas de antinomismo sem classifica-lo. Para o desenvolvimento desta classificação veja: PACKER. J.I. Teologia Concisa. ed. 1 Campinas:  Editora Cultura Cristã, 1999. p. 168-170.
[9] GOIS, Antônio; SCHWARTSMAN, Hélio. Cresce o número de evangélicos sem ligação com igrejas. 2011. Disponível em: .
[10] Caio Fábio, por exemplo, atribui a equivocada descrição de Deus pela religião a crescente descrença no mundo. Disponível em: .
[11] WESLEY, John. Um Apelo Sincero aos Homens de Razão e Religião. Maceió: Sal Cultural, 2016. p. 18.
[12] WESLEY, John. Sermón 24: Sobre el sermón de nuestro Señor en la montaña Cuarto discurso. In: GONZÁLEZ, Justo L (Org.). Obras de Wesley. Henrico: Wesley Heritage Foundation, 1996. Tomo II. p. 84. Disponível em:
[13] COLLINS, Kenneth J. Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p. 347.
[14] WESLEY, 2016. p. 25-26.
[15] WESLEY, Charles. Vem, Senhor, Ajudar. In: Hinário Metodista Brasileiro. São Paulo; São Bernardo do Campo: [s.n.], 2011. p. 55. Disponível em:
Fonte: O Wesleyano